segunda-feira, junho 30, 2008

junina






- São João passou por aqui?
- Passou sim.
Houve forró, xote, baião, côco, canjica, milho assado, milho cozido, licor, luiz gonzaga, jackson do pandeiro, xilogravuras, cantadores, sivuca, balões, bandeirolas de chitão, roupas de fuxico,sanfonas e minduins. Neste mês, rezei trezena para Antônio, pulei fogueira para João e soltei fogos de artíficio para Pedro. E arquéólogos descobrem que antes de batizar no Jordão, o santo do carneirinho realizava os seus rituais com água em grutas próximas a Ein Karim. Nunca pensei neste santo como um andarilho diurno. Para mim, ele sempre veio acompanhado de noite, fogo, estrela, música, cordões luminosos. Este ano, não tive um mês dedicado às festas - como gosto - pois o teatro me solicitou num show de Maria Bethânia, Orquestra Sinfônica, Meninas de Arembepe e Armandinho. E entre uma noite e outras, viradas nos bastidores dos palcos, ouço "a cantora mais linda do mundo" soprar como quem reza para o seu santo sob o céu de santo amaro: "meu pai são joão batista é xangô / é dono do meu destino até o fim / se um dia me faltar, a fé no meu senhor / derrube esta pedreira sobre mim ".
- São João passou por aqui, sim senhor.



terça-feira, junho 03, 2008

antônio


Já começaram as trezenas do santo junino. E eu ainda não fui orar para este santinho que ora aparece com flores, pássaros, peixes, crianças e também o menino jesus. Na sala da casa de uma amiga devota, ele é grande, de madeira, e carrega uma menininha. Ela diz: "sou eu na infância, com franjinha no cabelo". Na cabeceira da cama desta mesma amiga, ele é um presente dado por mim, numa reprodução barroca emoldurada delicadamente em bronze.
E está lá, neste lugar especial, pelo carinho que temos uma com a outra. Ela quase nunca vem a esta casa da mãe joana, mas deixo aqui para ela esta imagem do santinho que escolhi para ter comigo, numa folhinha, enfeitando a minha cozinha enquanto me lembra alegremente do tempo que vai passando.
No Pelourinho, no teatro Sesc-Senac, dia 13, tem final de trezena e forró. Vou lá ofertar minha dancinha e fazer reza com a Camerata Popular do Recôncavo.

domingo, maio 25, 2008

destruindo um universo

Há milhões de coisinhas para se falar de Shiva. Aconteceu-me uma coisinha para falar de Shiva: viajando para uma cidade do interior, a estrada é bloqueada porque um caminhão incendiou. Uma noite inteira vendo a fumaça se espalhar como um perfume que vai aderindo aos poros, um sentimento que vai se extinguindo, uma música que vai se compartimentando em algum lugar dentro de nós. A dança sagrada do fogo é sagrada, mesmo quando queima um automóvel.

terça-feira, maio 13, 2008

reparação


Concluo a leitura do romance Atonement(2002), de Ian McEwan, que, por aqui, recebeu o título Reparação e ele é demasiadamente superior à produção cinematográfica baseada nele, o Atonement(2007), traduzido Desejo e Reparação.

Emociono-me com as reflexões sobre literatura. São as reflexões de sempre, de muitos, mas arrumadas da forma que estão - comigo arrumada da forma que estou - me levaram para um local realmente pertubador: que preço teremos que pagar, nós, que lidamos com arte, para continuar seguindo este caminho?


"Então a dramaturgia transformou-se numa urtiga, aliás numa série delas; a superficialidade, o tempo desperdiçado, a desorganização das outras mentes, a inutilidade do faz-de-conta - no jardim das artes, era uma erva daninha que devia morrer" p. 94, Reparação. SP, 2002. Cia das Letras.

segunda-feira, maio 12, 2008

dimenti




Gosto desta liberdade do blog. De passar um mês longe dele e retornar como se nada tivesse acontecido. E nada acontece mesmo. Por causa da liberdade do blog. E como há liberdade, mudo as regras: publico aqui um textinho meu de ficção dramatúrgica. E outra regra também muda: é um texto grande para o tamanho que eu achava que devia ter um texto num blog. Mas o tamanho é o tamanho que queremos, não é mesmo? Lá vai: Maldita Infecção é o título. Mas também poderia ser Colosso, até mais rodrigueano. E foi um dos pequenos textos que o Dimenti montou nos seus 10 anos de grupo, em homenagem a Nelson Rodrigues. Eu, Cláudia Barral, Elísio Lopes Jr, Fábio Rios, Kátia Borges e Paula Lice fomos os responsáveis pelos monologuitos. Esta peça fará parte do repertório do Dimenti e por isso poderá voltar a cartaz em junho, dezembro ou abril do ano vindouro. Parabéns, Dimenti, por completar 10 anos nesta bela estrada de pedras.
Na foto, o ator Fábio Osório Monteiro.
MALDITA INFECÇÃO, de Adelice Souza

Arandir é todo dia. Ela sussurra esta frase no meu ouvido e vai enfiando a língua no meu corpo, em tudo o quanto é canto onde chega a língua, coisa sensacional. Eu também sou todo dia. E melhor que Arandir porque é todo dia e ainda sou gostoso, faço gostoso. Todo dia e gostoso. E ainda faço uma gemada para ela todo dia de manhã e levo na cama com um sorriso. Ato ritual. De pedra e cal. Batata que não minto. E não acho piegas. Ela é uma figurinha difícil da bala Ruth, tenho que agradar, tratar no ponto. Sou um homem de outro tempo, desses que já não se encontra hoje em dia. Solto beijo para ela no ar, com mão e tudo na boca, solto beijo pra ela a cada vez que saio de um cômodo a outro na casa. Quando estou no quarto e vou ao banheiro, de costas eu sei que ela está olhando pra mim, aí saio, viro de frente, feito passo de tango, solto beijo como se uma rosa estivesse cravada nos meus dentes, uma pétala roçando o lábio. Sou um amante latino, um diabo da Fonseca. Ela me adora, ela me venera. E eu a ela. Por isso é todo dia. E às vezes mais de uma vez ao dia, às vezes madrugada, manhã, almoço, ah!café da manhã e merenda. E de tarde, de noite até na hora da canja de galinha. Quando ela precisou fazer exame de laboratório porque estava com umas dores nos rins, ficou em jejum. Como não podia tomar gemada, aí eu levei água na cama. Faço as vontades. Água misturada. Do filtro e gelada. Água linda. Neste dia gritou em dobro, fez até poesia: disse que o meu pau tocava flauta, um pau romântico, um pau digno de Orfeu. E depois ainda cantou pra mim uma música do Roberto Carlos. A pequena tem cada palavrório de encher a boca. Mas tem uma coisa que eu acho estranho. É uma coisa bonita, honesta, honestíssima, eu compreendo, mas que é estranho é: ela só faz comigo no escuro. É cheia de pudores para se mostrar, mas grita gostoso feito o diabo. Grita de tudo. Um dia desses me chamou de Lafaiete. Disse que enlouquecia com este nome. Parei no ato, não consegui continuar, dei pra trás. Mas aí ela disse que Lafaiete é um nome de homem que ela nem conhece, nunca conheceu, entende? Disse que nunca conheceu um Lafaiete, mas achava Lafaiete um nome bonito de homem, ficava alucinada. E como ficou ainda mais gostosa, eu nem me incomodei dela gritando sem parar o nome de Lafaiete. Sou um homem ciumento, se eu soubesse, se intuísse que ela tivesse mentindo, eu mataria. Nunca imaginei que fosse matar alguém por amor, mas por essa mulher eu mataria. Eu mataria um, dois, cem mil. Minha mulher de costas é a mulher mais gostosa do mundo. Um traseiro que é um fenômeno. Um colosso! Um colosso de Rodes. Uma epopéia. Pelo traseiro da minha mulher, eu mataria até o presidente da república. O presidente. Coisa que eu gosto na cama é mulher que grita e a minha grita mais do que todas. Por isso eu nem me importo dela não deixar que eu a veja nua. Acho que até prefiro. Mulher séria mesmo não fica nua na frente de qualquer um. Tudo bem que eu sou o marido, mas sou homem. Essa semana me perguntou se eu queria ter filhos. Eu disse que não fazia questão. Ela disse que era melhor assim, não ia modificar o corpo. Eu juro que eu pensei no colosso. Aceitei no ato. Me confessou: não ia ter coragem de abrir as pernas pro médico. Achei isso lindo. Mulher séria mesmo não tem filho. Por isso que todo mundo é filho da puta. Mulher séria não abre perna pra médico. Mulher séria pra chuchu, a minha.
Ela é a mulher da minha vida, doutor. Por isso eu sou como Arandir: todo dia. Nem de dentista ela gosta. Diz que uma boca aberta é meio ginecológica. Passa bicarbonato nos dentes pra clarear e chá de anis pro hálito. E nunca teve nem cárie. Uma boca de fazer inveja a qualquer grã-fina de aparelho: 32 dentes. Quando era criança tomava bezetacil. Tinha amídalas inchadas. Tem até hoje um inchaço no pescoço. Eu gosto. Tem uma saúde de ferro, minha mulher. Batata que não minto.
Mas essa semana se deu um episódio, um fato tristíssimo: minha mulher começou a sentir umas dores fortes nos rins. Pensei: é fraqueza. Comprei um biotônico. Mas a dor foi aumentando. Fomos para o ambulatório. Receitaram uma injeção, ela tomou. No braço, evidente! Não passou. Crise fenomenal. Chegou o plantonista e disse:
- Infecção urinária. Cálculo renal. Se não expelir a pedra, bota o cateter e tira. Coisa simples, nem precisa internar. Entra hoje no hospital e sai antes das 24 horas.
Ela ficou em desespero. Gritava, chorava, esperneava, mugia. Nunca vi minha mulher assim. E a dor piorava. Quando não agüentou mais, desmaiou. Levaram para a enfermaria e horas depois, chega o plantonista com uma cara de quem viu viúva tomando chicabom. Eu perguntei:
- E aí? Cálculo?
- Cálculo.
E emudeceu, ficou num silêncio desgraçado. Depois disse:
- Olha, o cálculo saiu, mas tua mulher, tua mulher... Tu sabe, não sabe? Tua mulher é homem, rapaz. Tua mulher é homem.
Maldita infecção. Eu bem que um dia ou outro desconfiei, mas não se fala uma coisa dessas, assim, na bucha, para um marido. Plantonista! Só podia ser plantonista. Plantonista é pior que contínuo. Que raça! Quis partir a cara do sujeitinho. Uma audácia falar assim da minha mulher. Uma mulher honesta, doutor, honestíssima. Toma banho de combinação. Bem que ela estava certa em não querer abrir perna pra médico. Maldita infecção. Tá bom, é homem, uma tragédia, eu sei. Uma tragédia nacional! Mas não me importo, doutor. Ela grita gostoso feito o diabo. E uma coisa eu posso afirmar: não troco a minha mulher por nenhuma outra no mundo. Podem dizer o que quiserem, mas da Ribeira até Itapuã, ninguém grita como minha mulher.

sexta-feira, março 14, 2008

casa


Gosto de ter nascido em Castro Alves. Gosto de ter morado a infância quase inteira numa linda casa numa rua que era apelidada de rua do banheiro, mas que se chamava Hilarino Couto, nome que dias destes fiquei sabendo ser de um homem que escrevia peças de teatro ou promovia encontros de espetáculos. Algo assim numa biografia que já está se perdendo...
Hoje, dia 14, comemorando o aniversário do poeta homônimo, a cidade fará festa: haverá a fundação de uma Academia de Letras e Artes. Convidaram-me a fazer parte e eu aceitei o gracejo. Ocuparei a cadeira 14, e escolhi Hilarino Couto para patrono. Meus dois avôs chamavam-se Laurentino e Altino. Bem que Hilarino, com este nome tão feliz, poderia ser o terceiro irmão dos dois.
Assistindo Nelson Rodrigues na morada do blog de um amigo, ouço-o falar de eternidade. E tenho, nos últimos tempos, tentado compreender a questão da eternidade. A eternidade como libertação para o espírito que sempre seguirá. Mas ainda estou em passos de bebê, tropeçando.
Entro devagarinho nesta nova casinha, o Casarão de Castro Alves, em frente a uma praça que fica em frente a uma igreja. E, aos poucos, desapego-me da minha querida casa na rua da infância, despeço-me da minha adorada casa na rua da infância, transferindo esta afetividade para o Hilarino Couto, que recebe esta minha pequenina homenagem. Que ele, em sua eternidade, também me projeta e me acolha bem nesta nova casa.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

vestidos de vento


Há diversas explicações para o OM, todas muitíssimo belas. Aprecio muito a interpretação da Nadabindu Upanisad, que apresenta uma personificação mítica da palavra OM, imaginada como um pássaro, cuja asa direita seria a letra A, a esquerda a letra U e a cauda, a M. Gosto de imaginar a longa cauda do fonema e o som se propagando continuamente. Num estado profundo de meditação, um yogin pode chegar ao ponto de não ouvir mais nenhum som. Por enquanto,esforço-me para ouvir os sons sutis do universo. Mas quando ouço o OM dentro de mim, ainda são tempestades, cascata e ventanias. Talvez chegue o tempo das flautas, da vina, do sussurro das abelhas. E quem sabe, um dia, o silêncio...

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

cédula?


Esta é a imagem da cédula das eleições gerais do Paquistão. Na sequência, a pessoa eleita deveria olhar bem a cédula, meditar sobre a cédula e manter-se como a cédula: divertida, leve e séria. Como desenho e brincadeira de criança.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

exaustão


Eu trabalhava numa ong que foi fraudada por funcionários cínicos e corruptos.
Dezenas de jovens artistas talvez perderam suas únicas oportunidades de caminhar na arte. Repouso numa cidade suja que, depois do carnaval, os buracos nos alfaltos e o odor de urina causam infinitos danos ao pneuma dos carros e ao meu nariz e ao meu pulmão. Moro num país onde os noticiários revelam escândalos diários com políticos que nem trazem a vergonha como punição. Deliberadamente promulgam leis que alteram a ordem física e climática da cidade, utilizam-se descaradamente de dinheiro público através de cartões corporativos e depois de amanhã ninguém sabe o que será. Mas alguma coisa infelizmente haverá de ser. Um simples café expresso mataria a fome de uma semana de uma criança em Gana. Mas continuamos a beber os cafés expressos e as crianças africanas permanecem na míngua. Uma exaustão. A foto premiada no World Press Photo, de Tim Hetherington, expondo o cansaço de um soldado americano dentro de uma trincheira no Afeganistão não traduz a exaustão de um mundo, traduz a exaustão de uma nação. A minha guerra é uma outra guerra, a minha exaustão é outra. Mas eu e o soldado vivemos neste mesmo mundo.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

para um amado senhor

Em período pós-carnavalesco,um pouco de Hilda Hilst, uma poetisa dionisíaca que habitou uma apolínea Casa do Sol:

Trovas de muito amor para um amado senhor

Nave
Ave
Moinho
E tudo mais serei
Para que seja leve
Meu passo
Em vosso caminho.
(I)

* * *

Dizeis que tenho vaidades.
E que no vosso entender
Mulheres de pouca idade
Que não se queiram perder
É preciso que não tenham
Tantas e tais veleidades.

Senhor, se a mim me acrescento
Flores e renda, cetins,
Se solto o cabelo ao vento
É bem por vós, não por mim.

Tenho dois olhos contentes
E a boca fresca e rosada.
E a vaidade só consente
Vaidades, se desejada.

E além de vós
Não desejo nada.
(XIII)

sábado, fevereiro 02, 2008

um ano



Estou em outra casa, minha mãe.
Sim, dentro e fora de ti!
Outra igreja,
uma árvore no quintal.
E o teu banho nas minhas águas...

quinta-feira, janeiro 31, 2008

linho

Mãe, estes teu fios não são daninhos
Eles também são meus:
Meus filhinhos.


Paulo Autran, em A tempestade

quinta-feira, janeiro 24, 2008

o tecido de uma saia

Em Laozi, vou estando em casa:
"sem sair da morada, conhece-se o mundo
por isso o homem santo não anda... e conhece
não vê... e nomeia".

segunda-feira, janeiro 14, 2008

um rio santo

Carranca do São Francisco
Ocorre-me agora falar das portas. Fiquei por este tempo dentro de um lugar com portas. As portas estavam fechadas, mas eu estava dentro: as portas estavam fechadas para os outros, não para mim. Um rio não tem portas, por isso ele é de todos que o desejem. O rio é meu. E me desagrada que queiram inventar portas para o rio. Nas minhas costas, também deita um rio. Ele é caudaloso e brilhante, da nascente à sua foz. Às vezes, ele parece ter portas, mas é só uma impressão, pois o seu curso ora é livre, ora intermitente. Por causa dele, escrevo. Para entender os seus afluentes. Por causa dele, faço teatro. Para imaginar até onde ele se estende.

segunda-feira, novembro 26, 2007

um grande escritor


Hoje acontecerá o lançamento do projeto TIM Grandes Escritores. Um projeto que está circulando o país, pelo que venho sabendo. Na Bahia, teremos Affonso Romano de Sant'Anna, Marina Colasanti, Zuenir Ventura e escritores da terrinha. Estarei entre eles passeando com a literatura em algumas cidades do interior. Sei também de Claudius Portugal e Gláucia Lemos. Saberei hoje à noite quem são os outros. Estou feliz na companhia destes escritores queridos. E por causa do nome do projeto, lembro de Cortázar, que ganhou uma bela homenagem da Marina Colasanti num livrinho infantil cuja personagem principal não parava de crescer, invadindo com o seu corpo, as portas e os telhados. É o que eu gostaria de fazer com as minhas pequeninas palavras. Na foto, o grande Cortázar e Vargas Llosa.

domingo, novembro 11, 2007

aleijadinhos

Profeta Jeremias, de Aleijadinho

Tenho uma réplica de Aleijadinho em pedra-sabão. É o profeta Joel, que um dia caiu da minha estante e quebrou a cabeça. Acompanhando Joel, tenho outros objetos suicidas: uma miniatura de Drummond - sempre acompanhada da de Manoel Bandeira e Machado de Assis - que perdeu a cabeça por uma morena trigueira, que nunca deu boa pra ele, pois preferia mesmo era a sanfona de Luiz Gonzaga, uma das minhas miniaturas mais preciosas, esse sertanejo gigante no seu acordeão; havia uma sereia que se lançou cômoda abaixo e também perdeu a cabeça por um Odisseu navegante que passeava por um teclado de computador, num mar logo embaixo do móvel. Além destes, tenho outros tantos objetos de cerâmica mutilados nos pés, braços e pernas, destroçados pelo espanador de poeira. E ainda um cemitério de ímãs de geladeira, todos aguardando uma cola durepox. Para todos os outros objetos ainda intactos, fico pensando o que será deles quando eu não estiver mais aqui. Quem cuidará deles por mim quando também a minha cabeça estiver longe do corpo? A quem pertencerá toda esta minha herança afetiva? O profeta João Batista também perdeu sua cabeça para Salomé. Mas o que eu tenho aqui comigo, é o São João do carneirinho, ainda distante de qualquer tragédia. Para ele faço uma prece: que mantenha minha cabeça sempre próxima a esse universo fantasioso dos profetas e suas profecias.

segunda-feira, novembro 05, 2007

adega


Diz o Sr. Romanée-Conti: vinho não é para colecionar.
Já nunca colecionei, agora que bebo um tanto menos ou mesmo nada, um tanto menos e mesmo nada colecionarei.
De Gustave Doré, a ilustração do Satanás de Milton.

quarta-feira, outubro 24, 2007

acerca de la naturaleza

De Empédocles, traduzido do grego por Alberto Bernab:

6(4) En los miserables es costumbre no dar crédito a la autoridad.
Tú en cambio, tal como te exhortan las garantías de la Musa,
aprende, tras haber desmenuzado en tu fuero interno mi argumentación.
1(2) Y es que angostas son las mañas que por los miembros se extienden
y muchas las vilezas que embotan las meditaciones.
Tras haber observado en el curso de sus vidas una parte miserable,
efímeros como el mundo se echan a volar, arrebatados,
5 convencidos tan sólo de aquello que cada uno se encontró
en su vagar de un lado a otro, aun cuando cada uno se jacta de haberlo decubierto todo.
¡A tal extremo no son cosas observables ni audibles por los hombres
ni abarcables por su inteligencia! Así que tú, ya que hasta aquí te has acercado,
sabrás, pero no más de lo que el mortal entender puede alcanzar.

Uma lembrança por causa da discussão do the cult of the amateur, de Andrew Keen, que eu ainda não li...

E com ilustração naïf (le rhinocéros, de Aloys Zötl). Pois há coisa mais bonita em toda natureza.