quinta-feira, janeiro 31, 2008

linho

Mãe, estes teu fios não são daninhos
Eles também são meus:
Meus filhinhos.


Paulo Autran, em A tempestade

quinta-feira, janeiro 24, 2008

o tecido de uma saia

Em Laozi, vou estando em casa:
"sem sair da morada, conhece-se o mundo
por isso o homem santo não anda... e conhece
não vê... e nomeia".

segunda-feira, janeiro 14, 2008

um rio santo

Carranca do São Francisco
Ocorre-me agora falar das portas. Fiquei por este tempo dentro de um lugar com portas. As portas estavam fechadas, mas eu estava dentro: as portas estavam fechadas para os outros, não para mim. Um rio não tem portas, por isso ele é de todos que o desejem. O rio é meu. E me desagrada que queiram inventar portas para o rio. Nas minhas costas, também deita um rio. Ele é caudaloso e brilhante, da nascente à sua foz. Às vezes, ele parece ter portas, mas é só uma impressão, pois o seu curso ora é livre, ora intermitente. Por causa dele, escrevo. Para entender os seus afluentes. Por causa dele, faço teatro. Para imaginar até onde ele se estende.

segunda-feira, novembro 26, 2007

um grande escritor


Hoje acontecerá o lançamento do projeto TIM Grandes Escritores. Um projeto que está circulando o país, pelo que venho sabendo. Na Bahia, teremos Affonso Romano de Sant'Anna, Marina Colasanti, Zuenir Ventura e escritores da terrinha. Estarei entre eles passeando com a literatura em algumas cidades do interior. Sei também de Claudius Portugal e Gláucia Lemos. Saberei hoje à noite quem são os outros. Estou feliz na companhia destes escritores queridos. E por causa do nome do projeto, lembro de Cortázar, que ganhou uma bela homenagem da Marina Colasanti num livrinho infantil cuja personagem principal não parava de crescer, invadindo com o seu corpo, as portas e os telhados. É o que eu gostaria de fazer com as minhas pequeninas palavras. Na foto, o grande Cortázar e Vargas Llosa.

domingo, novembro 11, 2007

aleijadinhos

Profeta Jeremias, de Aleijadinho

Tenho uma réplica de Aleijadinho em pedra-sabão. É o profeta Joel, que um dia caiu da minha estante e quebrou a cabeça. Acompanhando Joel, tenho outros objetos suicidas: uma miniatura de Drummond - sempre acompanhada da de Manoel Bandeira e Machado de Assis - que perdeu a cabeça por uma morena trigueira, que nunca deu boa pra ele, pois preferia mesmo era a sanfona de Luiz Gonzaga, uma das minhas miniaturas mais preciosas, esse sertanejo gigante no seu acordeão; havia uma sereia que se lançou cômoda abaixo e também perdeu a cabeça por um Odisseu navegante que passeava por um teclado de computador, num mar logo embaixo do móvel. Além destes, tenho outros tantos objetos de cerâmica mutilados nos pés, braços e pernas, destroçados pelo espanador de poeira. E ainda um cemitério de ímãs de geladeira, todos aguardando uma cola durepox. Para todos os outros objetos ainda intactos, fico pensando o que será deles quando eu não estiver mais aqui. Quem cuidará deles por mim quando também a minha cabeça estiver longe do corpo? A quem pertencerá toda esta minha herança afetiva? O profeta João Batista também perdeu sua cabeça para Salomé. Mas o que eu tenho aqui comigo, é o São João do carneirinho, ainda distante de qualquer tragédia. Para ele faço uma prece: que mantenha minha cabeça sempre próxima a esse universo fantasioso dos profetas e suas profecias.

segunda-feira, novembro 05, 2007

adega


Diz o Sr. Romanée-Conti: vinho não é para colecionar.
Já nunca colecionei, agora que bebo um tanto menos ou mesmo nada, um tanto menos e mesmo nada colecionarei.
De Gustave Doré, a ilustração do Satanás de Milton.

quarta-feira, outubro 24, 2007

acerca de la naturaleza

De Empédocles, traduzido do grego por Alberto Bernab:

6(4) En los miserables es costumbre no dar crédito a la autoridad.
Tú en cambio, tal como te exhortan las garantías de la Musa,
aprende, tras haber desmenuzado en tu fuero interno mi argumentación.
1(2) Y es que angostas son las mañas que por los miembros se extienden
y muchas las vilezas que embotan las meditaciones.
Tras haber observado en el curso de sus vidas una parte miserable,
efímeros como el mundo se echan a volar, arrebatados,
5 convencidos tan sólo de aquello que cada uno se encontró
en su vagar de un lado a otro, aun cuando cada uno se jacta de haberlo decubierto todo.
¡A tal extremo no son cosas observables ni audibles por los hombres
ni abarcables por su inteligencia! Así que tú, ya que hasta aquí te has acercado,
sabrás, pero no más de lo que el mortal entender puede alcanzar.

Uma lembrança por causa da discussão do the cult of the amateur, de Andrew Keen, que eu ainda não li...

E com ilustração naïf (le rhinocéros, de Aloys Zötl). Pois há coisa mais bonita em toda natureza.

domingo, outubro 21, 2007

la nuit del'ecrit


Não sei bem porque, mas fui convidada para uma mesa redonda sobre blogs literários. São pessoas experientes no assunto, juntando estudiosos e importantes blogueiros. A casa da mãe joana não é literatura, é uma casa da mãe joana. Mas estarei lá para falar desta morada e de outras.Pois gosto das palavrinhas soltas no mundo, seja ele real ou virtual.E gosto dos encontros.E lá vou eu.E pra quem quiser ir...na Aliança Francesa, Ladeira da Barra, dia 23, terça, ás 19h.

quarta-feira, outubro 10, 2007


O Banco Capital convidou alguns escritores baianos (eu, Állex Leilla, Marcus Vinicius Rodrigues, Renata Belmonte e Aleiton Fonseca) para realizar um livro sobre a mansão Solar Cunha Guedes, aquela bela casa branca da Vitória, uma das poucas que ainda sobrevive aos empreendimentos imobiliários. Outras moradas é o nome do livrinho que terá lançamento hoje à noite, na própria casa. Infelizmente será um evento restrito a poucos convidados. Por causa disso, estamos caminhando para outras moradas e faremos um segundo lançamento no dia 15, segunda próxima, na charmosa livraria Tom do Saber, no Rio Vermelho. E o que eu gostaria mesmo é que todas estas pessoas queridas que passam aqui pela Casa da Mãe Joana aparecessem por lá.

quarta-feira, setembro 26, 2007

caribenha

Cercada de mar, cordilheira e música, tentei colocar o teatro como uma coisa possível dentro deste cenário. E assim, para produzir um diálogo, entrei na dança da salsa, do merengue, do calipso,do joropo e bailei esta mistura com samba, maracatu e afoxés. Houve folguedo enquanto Dioniso descia e subia a montanha numa saudação. Tudo estava bem, mas longe da casa nada é tão completamente feliz. E eu não sou dali, eu não tenho amor, eu sou da baía de são salvador. Ô marinheiro, marinheiro...

segunda-feira, setembro 24, 2007

la divina

Um querido amigo me envia a Callas cantantando o Rossini e eu lembro da sua Medéia, a também de Pasolini, com o seu lindo centauro. Esta espécime me interessa particularmente. E como o Pasolini, eu me atrevi retratá-lo num dos últimos contos que escrevi. Também a Medéia não é metade mulher, metade bicho?

sexta-feira, agosto 24, 2007

um projeto


Neste domingo, Cuida bem de mim completa 800 apresentações no TCA. Parece uma eternidade, mas não é: o tempo do teatro é outro e, vez ou outra, eu ainda grito da platéia, esqueço que sou a coordenadora artística do projeto e brinco e rio e danço com os meninos as musiquinhas da moda que eu tanto condeno no dia-a-dia. Já faz tempo que venho caminhando neste belo projeto do Liceu, que traz diariamente umas grandes alegrias para muitos adolescentes do país e tem feito os seus 30 jovens atores escolherem a trilha do teatro. Perto destes jovens, vou participando de suas escolhas e sendo alimentada por uma deliciosa energia inesgotável que vem das suas mais variadas manifestações de afeto, de arte, de brincadeiras. Eles são lindos e os seus sonhos são grandes. Eles sou eu ontem. E eu estou aqui.

quarta-feira, agosto 15, 2007

painéis de literatura

Aí está um novo evento literário. Organizado pelo professor e escritor Sandro Ornellas. Acontecerá lá no Instituto de Letras na UFBA e eu estarei respirando este ar no dia no dia 24 de outubro. Apareçam!

segunda-feira, agosto 13, 2007

citius, altius, fortius



O problema da tolerância é que ela é uma questão de opinião. Assim sendo, uma crença incerta ou uma crença numa certeza subjetiva. Na nossa lingua, ela passa uma idéia de polidez. Idéia que eu não gosto. Estava numa pizzaria filial destas do sudeste do país. Um lugar insosso, com música insossa. Tudo tão insosso que até este delicioso sabor do leste ficou insosso. Um atendimento tão veloz, tão desejoso de eficiência, que ficou insosso. E as pessoas, ao entrar, iam aderindo a este estado insosso, uma gente bonita que ia ficando parecida com manequim de loja decadente. E estávamos em nove. E estranhávamos tudo. Eu quero o meu sertão de volta. Soube que Elomar, um dia, gritou amigavelmente ao garçom de um restaurante paulista pedindo-lhe farinha. Assim, com um sotaque com gosto de carne seca e pedindo farinha, como se quisesse colocar água quente dentro e fazer fervura e farofa, comida com gosto de casa. Para alguns do restaurante paulista, foi dificil tolerar Elomar. Para mim também foi dificil tolerar a garçonete derrubando um prato no chão, tolerar um olhar que nunca se encontrava com o meu,tolerar o seu desejo de servir a todos os clientes de forma rápida, não para que ficassem satisfeitos, mas para que desocupássemos rapidamente as mesas, pois outras dezenas de pessoas já esperavam em pé. Sou intolerante, quis gritar. Mas usei a polidez e o humor, duas outras virtudes que tenho, já que me falta a tolerância. E sorri da moça, imitei seus gestos impacientes, sua inquietude, seu desejo antipático de estar em outro lugar. Eu também, às vezes,desejo estar em outro lugar. Ontem desejei estar em outro lugar, um lugar mais perto de casa.
E pensando em tolerância, ocorre-me o citius,altius,fortius e eu quero sim, esta bela imagem para mim, para mim.

sábado, agosto 11, 2007

o imperador e as galinhas


Passeando pelo subúrbio soteropolitano, o olhar vai registrando as coisas não costumeiras: a ética destruindo a estética dos casebres alagados na parte baixa da baía de todos os santos, a longa e perigosa avenida que nos obriga a andar em velocidade abaixo dos níveis e a imponente presença não vista do parque de são bartolomeu que leva nome de santo e cultua Iroco. Mas coisa com graça típica foi um caminhão que transportava aves para uma empresa e que trazia a seguinte marca: Ave Cezar! Assim mesmo, com ponto de exclamação e a letra z. Se eu fosse investigar, talvez chegasse na informação de que o dono da empresa também tem o nome do imperador...Pena que não trago sempre comigo uma máquina fotográfica a tiracolo. Assim, fica apenas o fraco registro das palavras que, infelizmente, nem sempre dão conta de tudo.

quinta-feira, agosto 09, 2007

nosso bosque


Para retomar o sentido do verde e amarelo diante deste caos aéreo e terreno que toma conta deste meu país. Sigo pois ainda há flores nos seus risonhos lindos campos.

domingo, agosto 05, 2007

contos da lua vaga


Por aqui tivemos mostra de Kenji Mizoguchi. Fui conferir porque não se acha jamais Mizoguchi em vídeo. O mestre influenciou meia dúzia de grandes diretores europeus e outro grande mestre, o Kurosawa. Num momento de um dos filmes, um vidente vaticina que uma personagem deve voltar para casa, voltar para si mesmo. E é neste momento, beirando o Tírésias e o seu oráculo para Édipo, que eu vou entendendo a mecânica japonesa trágica de Mizoguchi. E me aproximo dele, ainda sem saber voltar para casa, ainda sem saber voltar para mim.

segunda-feira, julho 30, 2007

desjejum


“Já viram como perdemos tempo em padecimentos inúteis? Não era melhor que fôssemos como os bois? Bois com inteligência. Haverá estupidez maior que atormentar um vivente por gosto? Será? não será? Para que isso? Procurar dissabores! Será? não será?” A frase é de Graciliano Ramos em São Bernardo. E para que eu a perceba, basta mesmo um bom café da manhã com pão, banana, mamão, beiju, cuscuz, tapioca, requeijão, cevada e minha sábia alienação palatina vai deixando a vida mais fácil.

domingo, julho 29, 2007

na beira



Há um sabor especial em morar numa cidade solar, tropical, que mesmo entendendo a ordem dos ares invernais, nem se dá conta, faz vista grossa, se esquece de esfriar. Os pés são os únicos que acompanham a temperatura da estação e eu os aqueço com óleos, massagens e meias. Mas eles são inquietos, se vestem de vermelho e correm, fogem, correm, escapam das minhas atenções, não se deixam aterrar, traçam caminhos que independem da minha vontade e com uma alma escarlate fervilhando, eles se abandonam, se refrescam na areia molhada e fria do mar.