quarta-feira, outubro 24, 2007

acerca de la naturaleza

De Empédocles, traduzido do grego por Alberto Bernab:

6(4) En los miserables es costumbre no dar crédito a la autoridad.
Tú en cambio, tal como te exhortan las garantías de la Musa,
aprende, tras haber desmenuzado en tu fuero interno mi argumentación.
1(2) Y es que angostas son las mañas que por los miembros se extienden
y muchas las vilezas que embotan las meditaciones.
Tras haber observado en el curso de sus vidas una parte miserable,
efímeros como el mundo se echan a volar, arrebatados,
5 convencidos tan sólo de aquello que cada uno se encontró
en su vagar de un lado a otro, aun cuando cada uno se jacta de haberlo decubierto todo.
¡A tal extremo no son cosas observables ni audibles por los hombres
ni abarcables por su inteligencia! Así que tú, ya que hasta aquí te has acercado,
sabrás, pero no más de lo que el mortal entender puede alcanzar.

Uma lembrança por causa da discussão do the cult of the amateur, de Andrew Keen, que eu ainda não li...

E com ilustração naïf (le rhinocéros, de Aloys Zötl). Pois há coisa mais bonita em toda natureza.

domingo, outubro 21, 2007

la nuit del'ecrit


Não sei bem porque, mas fui convidada para uma mesa redonda sobre blogs literários. São pessoas experientes no assunto, juntando estudiosos e importantes blogueiros. A casa da mãe joana não é literatura, é uma casa da mãe joana. Mas estarei lá para falar desta morada e de outras.Pois gosto das palavrinhas soltas no mundo, seja ele real ou virtual.E gosto dos encontros.E lá vou eu.E pra quem quiser ir...na Aliança Francesa, Ladeira da Barra, dia 23, terça, ás 19h.

quarta-feira, outubro 10, 2007


O Banco Capital convidou alguns escritores baianos (eu, Állex Leilla, Marcus Vinicius Rodrigues, Renata Belmonte e Aleiton Fonseca) para realizar um livro sobre a mansão Solar Cunha Guedes, aquela bela casa branca da Vitória, uma das poucas que ainda sobrevive aos empreendimentos imobiliários. Outras moradas é o nome do livrinho que terá lançamento hoje à noite, na própria casa. Infelizmente será um evento restrito a poucos convidados. Por causa disso, estamos caminhando para outras moradas e faremos um segundo lançamento no dia 15, segunda próxima, na charmosa livraria Tom do Saber, no Rio Vermelho. E o que eu gostaria mesmo é que todas estas pessoas queridas que passam aqui pela Casa da Mãe Joana aparecessem por lá.

quarta-feira, setembro 26, 2007

caribenha

Cercada de mar, cordilheira e música, tentei colocar o teatro como uma coisa possível dentro deste cenário. E assim, para produzir um diálogo, entrei na dança da salsa, do merengue, do calipso,do joropo e bailei esta mistura com samba, maracatu e afoxés. Houve folguedo enquanto Dioniso descia e subia a montanha numa saudação. Tudo estava bem, mas longe da casa nada é tão completamente feliz. E eu não sou dali, eu não tenho amor, eu sou da baía de são salvador. Ô marinheiro, marinheiro...

segunda-feira, setembro 24, 2007

la divina

Um querido amigo me envia a Callas cantantando o Rossini e eu lembro da sua Medéia, a também de Pasolini, com o seu lindo centauro. Esta espécime me interessa particularmente. E como o Pasolini, eu me atrevi retratá-lo num dos últimos contos que escrevi. Também a Medéia não é metade mulher, metade bicho?

sexta-feira, agosto 24, 2007

um projeto


Neste domingo, Cuida bem de mim completa 800 apresentações no TCA. Parece uma eternidade, mas não é: o tempo do teatro é outro e, vez ou outra, eu ainda grito da platéia, esqueço que sou a coordenadora artística do projeto e brinco e rio e danço com os meninos as musiquinhas da moda que eu tanto condeno no dia-a-dia. Já faz tempo que venho caminhando neste belo projeto do Liceu, que traz diariamente umas grandes alegrias para muitos adolescentes do país e tem feito os seus 30 jovens atores escolherem a trilha do teatro. Perto destes jovens, vou participando de suas escolhas e sendo alimentada por uma deliciosa energia inesgotável que vem das suas mais variadas manifestações de afeto, de arte, de brincadeiras. Eles são lindos e os seus sonhos são grandes. Eles sou eu ontem. E eu estou aqui.

quarta-feira, agosto 15, 2007

painéis de literatura

Aí está um novo evento literário. Organizado pelo professor e escritor Sandro Ornellas. Acontecerá lá no Instituto de Letras na UFBA e eu estarei respirando este ar no dia no dia 24 de outubro. Apareçam!

segunda-feira, agosto 13, 2007

citius, altius, fortius



O problema da tolerância é que ela é uma questão de opinião. Assim sendo, uma crença incerta ou uma crença numa certeza subjetiva. Na nossa lingua, ela passa uma idéia de polidez. Idéia que eu não gosto. Estava numa pizzaria filial destas do sudeste do país. Um lugar insosso, com música insossa. Tudo tão insosso que até este delicioso sabor do leste ficou insosso. Um atendimento tão veloz, tão desejoso de eficiência, que ficou insosso. E as pessoas, ao entrar, iam aderindo a este estado insosso, uma gente bonita que ia ficando parecida com manequim de loja decadente. E estávamos em nove. E estranhávamos tudo. Eu quero o meu sertão de volta. Soube que Elomar, um dia, gritou amigavelmente ao garçom de um restaurante paulista pedindo-lhe farinha. Assim, com um sotaque com gosto de carne seca e pedindo farinha, como se quisesse colocar água quente dentro e fazer fervura e farofa, comida com gosto de casa. Para alguns do restaurante paulista, foi dificil tolerar Elomar. Para mim também foi dificil tolerar a garçonete derrubando um prato no chão, tolerar um olhar que nunca se encontrava com o meu,tolerar o seu desejo de servir a todos os clientes de forma rápida, não para que ficassem satisfeitos, mas para que desocupássemos rapidamente as mesas, pois outras dezenas de pessoas já esperavam em pé. Sou intolerante, quis gritar. Mas usei a polidez e o humor, duas outras virtudes que tenho, já que me falta a tolerância. E sorri da moça, imitei seus gestos impacientes, sua inquietude, seu desejo antipático de estar em outro lugar. Eu também, às vezes,desejo estar em outro lugar. Ontem desejei estar em outro lugar, um lugar mais perto de casa.
E pensando em tolerância, ocorre-me o citius,altius,fortius e eu quero sim, esta bela imagem para mim, para mim.

sábado, agosto 11, 2007

o imperador e as galinhas


Passeando pelo subúrbio soteropolitano, o olhar vai registrando as coisas não costumeiras: a ética destruindo a estética dos casebres alagados na parte baixa da baía de todos os santos, a longa e perigosa avenida que nos obriga a andar em velocidade abaixo dos níveis e a imponente presença não vista do parque de são bartolomeu que leva nome de santo e cultua Iroco. Mas coisa com graça típica foi um caminhão que transportava aves para uma empresa e que trazia a seguinte marca: Ave Cezar! Assim mesmo, com ponto de exclamação e a letra z. Se eu fosse investigar, talvez chegasse na informação de que o dono da empresa também tem o nome do imperador...Pena que não trago sempre comigo uma máquina fotográfica a tiracolo. Assim, fica apenas o fraco registro das palavras que, infelizmente, nem sempre dão conta de tudo.

quinta-feira, agosto 09, 2007

nosso bosque


Para retomar o sentido do verde e amarelo diante deste caos aéreo e terreno que toma conta deste meu país. Sigo pois ainda há flores nos seus risonhos lindos campos.

domingo, agosto 05, 2007

contos da lua vaga


Por aqui tivemos mostra de Kenji Mizoguchi. Fui conferir porque não se acha jamais Mizoguchi em vídeo. O mestre influenciou meia dúzia de grandes diretores europeus e outro grande mestre, o Kurosawa. Num momento de um dos filmes, um vidente vaticina que uma personagem deve voltar para casa, voltar para si mesmo. E é neste momento, beirando o Tírésias e o seu oráculo para Édipo, que eu vou entendendo a mecânica japonesa trágica de Mizoguchi. E me aproximo dele, ainda sem saber voltar para casa, ainda sem saber voltar para mim.

segunda-feira, julho 30, 2007

desjejum


Já viram como perdemos tempo em padecimentos inúteis? Não era melhor que fôssemos como os bois? Bois com inteligência. Haverá estupidez maior que atormentar um vivente por gosto? Será? não será? Para que isso? Procurar dissabores! Será? não será?” A frase é de Graciliano Ramos em São Bernardo. E para que eu a perceba, basta mesmo um bom café da manhã com pão, banana, mamão, beiju, cuscuz, tapioca, requeijão, cevada e minha sábia alienação palatina vai deixando a vida mais fácil.

domingo, julho 29, 2007

na beira



Há um sabor especial em morar numa cidade solar, tropical, que mesmo entendendo a ordem dos ares invernais, nem se dá conta, faz vista grossa, se esquece de esfriar. Os pés são os únicos que acompanham a temperatura da estação e eu os aqueço com óleos, massagens e meias. Mas eles são inquietos, se vestem de vermelho e correm, fogem, correm, escapam das minhas atenções, não se deixam aterrar, traçam caminhos que independem da minha vontade e com uma alma escarlate fervilhando, eles se abandonam, se refrescam na areia molhada e fria do mar.

segunda-feira, junho 18, 2007

minha cumadre fulozinha

Não, o teatro não deve ser filmado, pois se transforma numa coisa muito diferente dele mesmo.
Aqui, um trechinho de uma das peças mais lindas que vi na vida, o Romeu e Julieta, do Galpão. Não, as imagens não refletem nada do que se deu naquele precioso fenômeno teatral. Mas fica aqui o registro para uma querida amiga que está muito distante e que se faz presente sempre, principalmente quando ouço esta música que fez com que ela passasse a me chamar de "minha fulô". Para você, Calçolita, com o cheiro dos lírios brancos e das tulipas vermelhas que agora perfumam de amor a minha pequena casa...

quinta-feira, maio 24, 2007

para quem gosta de cães

Foto: Elliott Erwitt

Uns cães atravessam a minha rua e entram na minha casa e deitam na minha cama e me mordem e me lambem com os seus sustos e seus afagos. Há alguns cães negros que espreitam, esperando o momento certo em que vão me devorar. Destes, eu terei sempre um medo, o pavor da carne dilacerada. Num atrevimento, os siberianos brancos e cinzas, deitam no meu colo. E para eles eu sou mãe, uma cantiga de ninar. Os da infância me olham de longe, devolvendo-me todo o paraíso perdido, pulando alto em minha cintura, despertando o dia com sorrisos e salivas, para o ar ter mais calor e sabor. E assim, numa estrada dentro de mim, os cães correm. Eles me perseguirão sempre, como uma idéia fixa que eu escolhi nesta vida para amar, enquanto eu não morrer.

segunda-feira, maio 14, 2007

alento

Por dentro e por fora
Num acordo profundo
O primeiro suspiro,
respiro:
ki-hai, bayu, prana
Em todo lugar, o meu ar.

quinta-feira, maio 03, 2007

nélida piñon


Um amigo querido me conta que um dia esteve numa festa onde estava o Cortazar. Perdi esta festa.
Não sei como era o rosto de Homero e tento imaginar Shakespeare em roupas de ensaios teatrais, mas nem sempre consigo.
Desconheço o sotaque de Guimarães Rosa, as contrações abdominais de Artaud, os passos de dança em Lorca e as comidas que saboreavam o paladar de Kafka.
Nélida é uma escritora do meu tempo, da minha língua, do meu verso e que toca profundamente o meu coração. Pode existir maior contentamento do que sabê-la ali, ao sudeste do meu país, a fazer anos e eu podendo desejá-la uma imensidão de coisas benfazejas para sua vida e sua escrita?
Axé, Nélida!

sábado, abril 28, 2007

são genésio, abençoa nosso ofício!


Sei pouco dos santos, mas adoro suas estórias e assim vou tentando entender um pouquinho. Sobre São Genésio, gosto de imaginá-lo como padroeiro dos atores. E sua imagem decapitada me coloca a pensar: porque os atores teriam um padroeiro que tem a cabeça a perambular por um lugar diferente do corpo?
O meio teatral às vezes me entristece: onde deveria existir sensibilidade, delicadeza e junção, há vaidade, superficialidade e rompimento.
Nestes dias de feriado do dia do trabalho e sem trabalho, sem construções teatrais nem nada, peço bênção a São Genésio, para que ele conceda a todos coração.
E aqui deixo a canção São Genésio, de Tata Fernandes e Gero Camilo (ator que esteve numa das peças de teatro mais lindas que vi, O Vau da Sarapalha, baseado do conto homônimo de Rosa). A música ouço na voz da delicada Ceumar, mas aqui fica apenas o registro da letra. É o que vou desejando nestes dias...


São Genésio

Santinho pequenininho de coração
Assim assim pequenininho
Protege tua legião
Abençoa nosso ofício
Que o drama, que o riso
De forma assim assim pequenininha
Conceda a todos coração
Abençoa nosso ofício
Que o drama, que o riso
De forma assim assim pequenininha
Conceda nosso ganha pão
São Genésio protege tua legião
São Genésio concede a todos coração
São Genésio concede nosso ganha pão

domingo, abril 22, 2007

didi mocó sonrisal colesterol novalgino mufumbo

Um amigo me trouxe hoje a lembrança de Renato Aragão, o Didi. E eu encontro em vídeo esta maravilhosa brincadeira com a Maria Betânia. Feliz de mim que tive na infância estes trapalhões politicamente incorretos e deliciosos.

quinta-feira, abril 19, 2007

dia de rei


Os índios, Roberto Carlos e as baleias que cruzaram oceanos comemoram este dia. E eu celebro o rei Roberto porque ele faz de mim algo mais piegas, tanto mais romântica. E eu acordo com ele, vivo com ele. E durmo com ele. E viajo com ele. E danço com ele. E choro com ele. E eu amo com ele.
Mas como queria Heráclito, o reinado também passa, feito um rio. E o rei é correnteza forte e pedra no meio do caminho. Algumas vezes, o rei ficou nu. E tudo se calou frente ao fato de que o rei era mais bonito nu: mutilado, voltou a ser infinito, o rei. Para o rei Roberto e também para mim e para você neste dia de reisado, uns versinhos de outro ariano, o poeta português Abel Neves:

Quatro versos para um grego de Éfeso

Não sei quantas águas tem este rio ou
sei que outro é o rio
que estas mãos aquecem
E outras são as mãos